Luís Campos
Portugal não está suficientemente preparado para enfrentar os impactos das alterações climáticas na saúde, alerta Luís Campos, presidente do Conselho Português para a Saúde e Ambiente. É preciso mais planeamento e melhor articulação entre os setores público e privado.
As alterações climáticas estão a criar novos desafios para os sistemas de saúde e a ampliar riscos que muitas vezes passam despercebidos. Esse foi um dos alertas deixados por Luís Campos, presidente do Conselho Português para a Saúde e Ambiente, durante a Conferência sobre Saúde e Alterações Climáticas, organizada pela Multicare no TIC – Técnico Innovation Center, em Lisboa.
O médico internista chama a atenção para os efeitos na saúde que surgem após eventos climáticos extremos. “Depois de um fenómeno extremo surgem outros problemas: aumento de doenças infecciosas, hepatite, leptospirose, doenças respiratórias e maior probabilidade de acidentes”, explica. A estes impactos somam-se consequências psicológicas relevantes. “Existem também perturbações mentais. Estima-se que a taxa de suicídio aumente cerca de 20% no primeiro ano e 60% no segundo ano após estas catástrofes.”
Planeamento precisa-se
Para Luís Campos, esta realidade exige uma vigilância contínua e uma resposta organizada do sistema de saúde. “O sistema de saúde tem de estar atento, monitorizar estes impactos e ter uma resposta adequada”, sublinha.
O especialista defende também que o país precisa de aprender com crises recentes. A pandemia de Covid-19, recorda, revelou fragilidades estruturais que continuam por resolver. “Se perguntarmos o que mudou depois da pandemia, eu diria muito pouco”, afirmou, à margem da conferência.
Um outro desafio está na melhoria da capacidade de articulação entre os diferentes setores da saúde. Segundo Luís Campos, a cooperação entre os setores público e privado revelou-se insuficiente durante a pandemia. Essa colaboração deve ser planeada antes de novas crises ocorrerem. “Perante uma nova pandemia ou uma grande catástrofe climática, temos de contar com os dois setores: o Serviço Nacional de Saúde e o sistema privado”, defende.
Caso contrário, alerta, os erros poderão repetir-se. “Na próxima pandemia ou catástrofe climática vamos ter uma resposta muito reativa e muito pouco planeada. E sabemos que respostas reativas têm muito pior qualidade do que respostas planeadas.”