Paulo Artaxo
Em entrevista durante a Conferência Saúde e Alterações Climáticas, o cientista brasileiro Paulo Artaxo, professor da Universidade de São Paulo, sublinha que eventos extremos, como ondas de calor e a expansão de doenças transmitidas por insetos, já estão a alterar o perfil de risco sanitário em todo o mundo.
As alterações climáticas deixaram de ser apenas um problema ambiental ou energético e são cada vez mais um desafio de saúde pública. Essa foi uma das mensagens centrais deixadas por Paulo Artaxo, cientista de referência na área do clima e professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo, durante a Conferência sobre Saúde e Alterações Climáticas, organizada pela Multicare no TIC – Técnico Innovation Center, em Lisboa.
Em entrevista, este investigador tornou clara a relação entre clima e saúde: “As mudanças climáticas como um todo terão um enorme impacto sobre a saúde de vários pontos de vista”, afirma. Entre os fatores mais preocupantes está o aumento das temperaturas extremas: “O aumento de ondas de calor é a maior causa de mortalidade devido ao impacto das mudanças climáticas”.
Mais fenómenos extremos e doenças
Os dados mais recentes confirmam essa tendência. Segundo estudos científicos citados por Paulo Artaxo, as ondas de calor registadas na Europa em 2023 provocaram cerca de 70 mil mortes. As populações mais vulneráveis — idosos, crianças ou pessoas com doenças cardiovasculares — são as mais afetadas por estes episódios de calor extremo.
Mas os riscos não se limitam às ondas de calor. O cientista destaca também o impacto do aumento dos fenómenos extremos e das doenças infecciosas: “Estamos a ver mais enchentes, mais eventos climáticos extremos e o aumento da propagação de doenças trazidos por insetos, como o dengue”.
Com a alteração dos padrões climáticos, estes vetores expandem a sua presença geográfica, o que pode trazer para novas regiões doenças antes consideradas tropicais.
Neste contexto, Artaxo defende que a literacia em saúde se torna essencial para preparar as sociedades para estes novos riscos. “Investir em educação para a população, alertando sobre os impactos das mudanças climáticas na saúde, é uma tarefa absolutamente essencial”, sublinha. Para o investigador, o clima já mudou e com ele mudou também a incidência de doenças em várias regiões do mundo, incluindo na Europa.